quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Uma carta de Cesare Battisti

Uma carta de Cesare Battisti: A história não se julga nos tribunais, ela será sempre

Caros companheiros(as), há meia hora, nesta terça, antes da visita dos companheiros decidi escrever um recado para todos vocês que participam dessa luta em meu favor. Resultado: pouco tempo para escrever algo vigoroso; cabeça cheia de insultos grifados de uma cela a outra; e o espírito fica longe: palavras que não se deixam prender e, enfim, o recado é para já.

Tem-se dito e escrito tanto sobre esse “Caso Battisti” que já não sei mais distinguir direitinho o eu do outro. Aquele Battisti surgido do nada e jogado pela mídia como pasto para gado. Mas essas são só palavras, vazias como as cabeças desses mercenários que costumam facilmente trocar a pistola com a caneta e até uma cadeira no Congresso. No entanto, os companheiros/as de luta, assim, todos/as aqueles que ainda sabem ler atrás da “notícia”, vocês sabem quem é quem, qual a minha história e também a manipulação descarada que está servido a interesses políticos e pessoais, de carreira e de mercado: em 2004, depois de 14 anos de asilo, a França de Sarkozi me vendeu à Itália de Berlusconi em troca do trem-bala [comboio de grande velocidade] de Lyon-Turin. Desde o ano 2000 estamos assistindo à impiedosa tentativa do estado italiano enterrar definitivamente a tragédia dos anos de chumbo, jogando na prisão e levando à morte o bode expiatório Cesare Batisti.

Entre centenas de refugiados dos anos 70 que se encontram em vários países do mundo, não fui escolhido eu por acaso nem pela importância do papel de militante, mas pela imagem pública que eu tinha enquanto escritor, o que me dava o acesso à grande mídia para denunciar os crimes de Estado naquela época e os atuais…

Eis que de repente há tantas coisas por dizer que eu não sei mais me orientar! Pela rua, claro, só a rua vai me dirigir até vocês. Na rua comecei mil anos atrás e nela continuo; nela mesmo onde será praticamente impossível evitar-nos. E então falo, falo de homens e de mulheres, de companheiros(as), de sonhos e de Estados (esses também ficam no caminho, de ladinho). Falo sobre minha vida que não conheceu hinos, nem infância, mas que em troco tive o mundo todo para brincar com outra música que não essas fanfarras de botas.

Contudo, parece quase que que estou falando como homem livre, não é? Porém, estou preso. Vai fazer quatro anos no próximo março. Ainda assim, essas cariátides da reação não conseguiram me pegar em tempo. Quase três anos se passaram (antes de eu ser preso), de rua a outra, nesse tempo conheci o país, cheirei o povo, me misturei a ele, ao ponto de quase esquecer o hálito fedorento dos cães de caça. Ainda estou preso, está certo, mas isso não me impede de sentir lá fora vossos corações batendo pela liberdade.

Talvez eu tinha que falar-lhes algo mais sobre esta perseguição sem fim, dar-lhes algumas dicas de como driblar a matilha. Mas acabei por pintar-lhes um abraço sincero e libertário. É o que conta.

Cesare Battisti, 18 de janeiro de 2011

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CesareLivre!

Uma carta de Cesare Battisti

Uma carta de Cesare Battisti: A história não se julga nos tribunais, ela será sempre

Caros companheiros(as), há meia hora, nesta terça, antes da visita dos companheiros decidi escrever um recado para todos vocês que participam dessa luta em meu favor. Resultado: pouco tempo para escrever algo vigoroso; cabeça cheia de insultos grifados de uma cela a outra; e o espírito fica longe: palavras que não se deixam prender e, enfim, o recado é para já.

Tem-se dito e escrito tanto sobre esse “Caso Battisti” que já não sei mais distinguir direitinho o eu do outro. Aquele Battisti surgido do nada e jogado pela mídia como pasto para gado. Mas essas são só palavras, vazias como as cabeças desses mercenários que costumam facilmente trocar a pistola com a caneta e até uma cadeira no Congresso. No entanto, os companheiros/as de luta, assim, todos/as aqueles que ainda sabem ler atrás da “notícia”, vocês sabem quem é quem, qual a minha história e também a manipulação descarada que está servido a interesses políticos e pessoais, de carreira e de mercado: em 2004, depois de 14 anos de asilo, a França de Sarkozi me vendeu à Itália de Berlusconi em troca do trem-bala [comboio de grande velocidade] de Lyon-Turin. Desde o ano 2000 estamos assistindo à impiedosa tentativa do estado italiano enterrar definitivamente a tragédia dos anos de chumbo, jogando na prisão e levando à morte o bode expiatório Cesare Batisti.

Entre centenas de refugiados dos anos 70 que se encontram em vários países do mundo, não fui escolhido eu por acaso nem pela importância do papel de militante, mas pela imagem pública que eu tinha enquanto escritor, o que me dava o acesso à grande mídia para denunciar os crimes de Estado naquela época e os atuais…

Eis que de repente há tantas coisas por dizer que eu não sei mais me orientar! Pela rua, claro, só a rua vai me dirigir até vocês. Na rua comecei mil anos atrás e nela continuo; nela mesmo onde será praticamente impossível evitar-nos. E então falo, falo de homens e de mulheres, de companheiros(as), de sonhos e de Estados (esses também ficam no caminho, de ladinho). Falo sobre minha vida que não conheceu hinos, nem infância, mas que em troco tive o mundo todo para brincar com outra música que não essas fanfarras de botas.

Contudo, parece quase que que estou falando como homem livre, não é? Porém, estou preso. Vai fazer quatro anos no próximo março. Ainda assim, essas cariátides da reação não conseguiram me pegar em tempo. Quase três anos se passaram (antes de eu ser preso), de rua a outra, nesse tempo conheci o país, cheirei o povo, me misturei a ele, ao ponto de quase esquecer o hálito fedorento dos cães de caça. Ainda estou preso, está certo, mas isso não me impede de sentir lá fora vossos corações batendo pela liberdade.

Talvez eu tinha que falar-lhes algo mais sobre esta perseguição sem fim, dar-lhes algumas dicas de como driblar a matilha. Mas acabei por pintar-lhes um abraço sincero e libertário. É o que conta.

Cesare Battisti, 18 de janeiro de 2011

domingo, 16 de janeiro de 2011

Livros de apoiadores de Cesare Battisti proibidos nas Bibliotecas de Veneza

Estamos reproduzindo aqui a notícia veiculada pelo Comitê de Solidariedade a Cesare Batistti, cesarelivre.org. Cesare Livre!

Livros de apoiadores de Cesare Battisti proibidos nas Bibliotecas de Veneza


Uma circular enviada por Raffaele Speranzon, assessor de cultura de Veneza, e do partido de Berlusconi, manda retirar das estantes das bibliotecas de Veneza os livros de todos os autores que em 2004 firmaram uma carta pela liberdade de Cesare Battisti. Os blibliotecários que não obedecerem serão responsabilizados, diz a circular.

Entre os autores banidos mais conhecidos do público brasileiro está, por exemplo, o filósofo Giorgio Agamben.

Também na lista de banidos se encontra, entre muitos outros:

Valerio Evangelisti, Wu Ming, Massimo Carlotto, Tiziano Scarpa, Nanni Balestrini, Daniel Pennac, Giuseppe Genna, Girolamo De Michele, Vauro, Lello Voce, Pino Cacucci, Christian Raimo, Sandrone Dazieri, Loredana Lipperini, Marco Philopat, Gianfranco Manfredi, Laura Grimaldi, Antonio Moresco, Carla Benedetti, Stefano Tassinari.

Receia-se que tal política se estenda para a região e para além dela, se nada for feito.

Por que será que a grande mídia não noticia este fato? Será se é porque não pega bem mostrar a face fascista dos que querem Battisti extraditado, do governo Berlusconi e do "Estado Democrático de Direito" italiano?

E ainda há os que dizem, contra todos os fatos, que não há nada que mostre que Battisti seria perseguido político. Se os apoiadores dele já o são, imaginem ele.

Link com a notícia: http://ilgazzettino.it/articolo.php?id=134755&sez=NORDEST

Sobre o fato, por Wu Ming, coletivo de autores banido: http://www.wumingfoundation.com/giap/?p=2572

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Reflexões sobre o Anti-Manifesto de Tomaz Tadeu da Silva e Sandra Corazza

Reflexões sobre o anti-manifesto de Tomaz Tadeu da Silva e Sandra Corazza (1)

Autor: Kairós Malatesta

La imposibilidad de penetrar el esquema divino
del universo no puede, sin embargo, disuadirmos
de planear esquemas humanos, aunque nos
conste que éstos son provisorios.
J. Luis Borges


A leitura do texto provoca uma interrupção de proliferação de subjetividade. A transmissão do saber por meio da dialética dos significados, torna-se um diálogo sem comunicação. A totalidade dos desejos perde a verdade e razão.

A escolha dessas palavras, encontradas nas primeiras linhas do texto, é intencional.
O que tentarei demonstrar nesta breve reflexão é a característica niilista e aniquiladora do artigo e a atual necessidade de subjetivar e objetivar a ação política e crítica.

A não existência da história como processo lógico e evolutivo, a sua impossibilidade teleológica são dados assumidos desde o século XIX, e os horrores que desencadearam tais posições éticas e filosóficas são testemunhados na história do sec. XX.
O manifesto de T. da Silva - que não deixa de ser um manifesto como na maior tradição futurista ou dadaísta, parece o desfile póstumo da alta moda filosófica francês fin de sécle. Esteticamente bonito, tecnicamente perfeito em seus dispositivos de comunicação erudita, recalca efeitos barrocos e rococó.

Bem sei que pouco sei da riqueza dos mestres pós-modernos (Lyotard, Foucault, Deleuze,...), mas o respeito por eles e sagrada dúvida, me leva a acreditar que os trabalhos por eles desenvolvidos não terminam onde o texto encontra o seu clímax. Este cume é mais uma apologia ao vazio que abre o caminho para a barbárie (Matei), uma exaltação do fatalismo e do indeterminismo que considero o principal objetivo de mindnumbing da indústria cultural moderna.

Este o nosso pão cotidiano, o que o convento do “pensamento crítico” nos passa e inculca.

O intelectual T. T. da Silva, tornou-se um burguês abastado, que pode permitir-se de mediar o seu contato com uma pseudo realidade por meio de livros, assistentes e funcionários. Como um Odisseu acadêmico, percorre a sua viagem cognitiva bem amarrado ao mastro do estatus quo epistemis, surdo aos perigos e riquezas das sereias francesas. Uma experiência inútil, assim como a coragem dos mestres pós-modernos por ele não passa de um ensinamento abstrato, não revolucionário.

Adorno (Dialética do Esclarecimento) diz que “... a era hitlerista nos ensinou ... como é estúpido ser inteligente” ... “Os inteligentes sempre facilitaram as coisas para os bárbaros...”. A constatação da dissolução do sujeito e objeto, do fora e do dentro, “este estar imersos acaba com toda representação de critérios metodológicos” (T. Negri), não pode justificar a submissão ao biopoder das oligarquias capitalistas.

A urgência de subjetividades de oposição, de novos métodos de luta e análise histórico-conjectural é impelente. A idade média do sec. XXI patrocinada pelo não lugar que chamamos de Império, representa um evidente regresso histórico. Se a ratio burguesa pretende a universalidade, dialogar com um fascista é quase impossível, pois ele é inacessível a razão porque só a enxerga na capitulação do outro (Adorno). “O sujeito não existe. O sujeito é um efeito da linguagem” diz da Silva, mas o efeito das bombas dos B-52 é a eliminação tanto dos sujeitos quanto da linguagem.

Nasce assim a exigência de uma militância entendida como complexos (: aquele que se tece em conjunto) de luta, que torna as origens do espírito marxista com o aparente paradoxo de “um método relativista que torna-se uma posição absoluta” (Negri). Este um impulso radical que consiste em uma mudança total nas esferas intelectual e material, nas relações sociais e nas instituições. Se o positivismo e a sociologia de Comte ou Manheim pretendia em primeiro lugar mudar as consciências intelectuais e depois as instituições, agora bem sabemos que as tecnologias de controle são obstáculo para a mudança das duas.

Pregar a não-violência é pregá-la só aos que a praticam (Marcuse). A violência simbólica e material do sistema capitalista alavanca energias e tempo neste “estúpido” impasse intelectual. “Diante da idea de desafio, é bom saber que há risco do erro ontológico, da ilusão, e que o absoluto é, simultaneamente, o incerto.” (Morin). Mas se “o futuro encontra-se problematizado, e ficará assim para sempre” (Patcka), então é necessário “pensar e viver sem fundações ltimas” (da Silva) mas operando ativamente para construir os alicerces, as fundações primeiras: um esforço em direção de um mundo melhor para todos e para todos os mundos possíveis. “Exaltar o caráter humano, profano, terreno, de nossos objetos. Assumir nossa responsabilidade na sua criação.” diz da Silva no fim do texto.

Para concluir precisamos de uma guerrilha menos intelectual, e mais revolucionária [ação direta; sabotagem ludista; greve geral; manifestações e paralisações metropolitanas], consciente dos perigos e dos custos materiais para que no futuro o sangue derramado seja uma lembrança nas bandeiras vermelhas e não mais o triste cotidiano das indústrias de morte. “A revolução será sempre tão violenta como a violência que a provocou, ou seja, como a que exerceram os grupos dominantes.” (Marcuse citando Engels)

(1) O "Manifesto por um pensamento da diferença em educação", de Tomaz Tadeu da Silva e Sandra Corazza, pode ser lido na íntegra AQUI.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Revista Polêmica

IMAGEM - Caderno da revista eletrônica Polêmica, da UERJ.
n.8(4) - ano 2009

QUESTÕES CONTEMPORÂNEAS A PARTIR DE GILLES DELEUZE

Apresentação do Caderno Imagem
Rodrigo Gueron

Gilles Deleuze anticapitalismo e ativismo politico
Rodrigo Gueron

Deleuze, migrações e racismo
Leonora Figueredo

Deleuze, a antropologia imanentista
Giuseppe Cocco

Funk: nomadismos, inadequações e instaurações estéticas na cidade-tudo.
Aldo Victorio

Deleuze, Guattari e as Cidades
Gerardo Silva

Acontecimentos nas metrópoles
Barbara Szaniecki

http://www.polemica.uerj.br/8(4)/cimagem/index.htm

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Livro:::O Estado Penal e a Sociedade de Controle




A finalidade desta obra é analisar, através do programa Delegacia Legal do governo do estado do Rio de Janeiro, a sociedade de controle e o estado penal. Com recurso a uma pesquisa intervenção, desenvolveu-se uma cartografia das forças que atravessam tal programa e uma problematização da função demandada dos especialistas que o operam.

São especialmente focalizados, entre os especialistas, os psicólogos contratados para a aplicação do programa. Estes, com seus discursos de suposta neutralidade, objetividade e imparcialidade, legitimam a convergência, cada dia mais acentuada, das políticas penais às sociais.

A tendência mundial de redução das políticas sociais do Estado em decorrência do neoliberalismo e sua contrapartida necessária, o aumento vertiginosos do investimento nas políticas de segurança, produzem o que Loïc Wacquant e outros estudiosos de criminologia denominam estado penal. Através deste, mecanismos disciplinares e de controle conduzem à gestão da força de trabalho excedente.

O livro sustenta a visão de que a insegurança pessoal e social encontrada no mundo contemporâneo é alimentada por essa política repressiva de gestão da oferta de mão-de-obra. Daí decorrem a instalação de um estado penal em detrimento de dispêndios na área social, a dominância de subjetividades na política de repressão policial, a ameaça permanente de condenar a população trabalhadora à condição de consumidor falho, de habitante descartável.

Sem problematizar essas questões, a mídia em geral, de forma simples e conveniente, vem associando a insegurança pessoal e social à violência urbana e esta, historicamente, à pobreza. Isso forma o tripé homicida insegurança/pobreza/violência, que dizima parte da população jovem, pobre e negra do estado do Rio de Janeiro nos dias atuais.